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"Comer é um ato político", afirma a nutricionista Bruna de Oliveira

Em entrevista ao Tenda Viva, a Co-fundadora do movimento Other Food compartilha suas experiências de militância, intercâmbios e projetos de vida

A Tenda Viva é uma comunidade, e comunidades são construídas por pessoas. As pessoas que tem se juntado a ideia e aquelas que conhecemos pelo caminho são muito importantes para a concretização deste projeto. Pensando nisso, inauguramos hoje a seção de entrevistas dentro do blog. Neste espaço vamos conhecer pessoas que são envolvidas com a alimentação saudável e consciente, e vamos descobrir como elas podem nos inspirar a repensar a maneira de consumir os alimentos.

Para abrir esta seção, convidamos a nutricionista formada pela Unisinos, Bruna de Oliveira.

A Bruna é integrante do projeto Other Food que trabalha com a busca pela erradicação da fome no mundo através das PANCs (não sabe o que é? Segura essa curiosidade que a Bruna vai nos explicar). Neste caminho da nutrição e da militância também participou de um intercâmbio com trabalho voluntário em uma fazenda de orgânicos na Inglaterra (conhece o WWOOF?). Hoje, ela trabalha em Brasília e integra a equipe de pesquisa do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares(OBHA), ligado a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Quer conhecer essa maravilhosa? Acompanhe a entrevista.

  • Tenda Viva: Poderia começar falando de onde surgiu o teu interesse pela nutrição, como foi tua experiência durante o curso, como formou essa visão crítica sobre a alimentação no mundo...

Foram muitos os elementos e as dimensões que convergiram para eu ser nutricionista hoje. Se eu te disser que já quis ser designer de joias, tu acredita? Com 14 anos era isso que eu queria ser enquanto profissional, o problema era que minha mãe não curtiu muito a ideia, disse que não pagaria nenhuma faculdade de moda pra mim e que eu deveria ter uma profissão. Como ela é técnica em enfermagem no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e existe parceria entre o hospital e uma escola de nível técnico, lá fui eu fazer meu ensino médio concomitante com formação técnica em nutrição. Eu escolhi o curso técnico de nutrição (por livre e espontânea pressão materna, kkkkkk) porque era o mais longe dos possíveis contatos com sangue, eu nunca fui forte para sangue. Meu primeiro semestre foi um desastre, reclamava de tudo, matava aula, dizia que não gostava de nada... 

Simultaneamente a isso, eu me reaproximei de uma congregação cristã que minha família costumava ir quando eu era criança. Foi o início do desenvolvimento da minha espiritualidade e onde eu comecei a encontrar respostas para aquelas perguntas "básicas": "qual o sentido da vida?", "qual o objetivo de eu estar viva?", "qual meu papel no mundo". Foi bebendo dos temas da Teologia da Libertação e da Missão Integral que eu resolvi dar uma chance para a nutrição e foi articulando as duas coisas e contornando meus desejos para o futuro. Foi num trabalho de filosofia sobre desigualdades sociais que me aproximei dos cenários famintos do mundo, isso me marcou profundamente e desde então eu sabia que não queria mais trabalhar com joias e sim com pessoas, alimentos e amor. Eu comecei a ler muitos livros, ver muitos documentários e fui pirando, não somente a minha cabeça, mas a de todos que me rodeavam. Queria ir à África a todo o custo, queria ir lá entender porque tantas comunidades passavam fome e como eu poderia ajudar. Meus pais disseram que eu só poderia ir depois que tivesse uma graduação, nesse sentido, a melhor escolha a ser feita seria correr para uma graduação de Nutrição, foi o que eu fiz.

Minha entrada na graduação foi assim, com expectativas do tamanho do mundo para encontrar pessoas e oportunidades que me ajudariam a combater a fome no mundo. Eu sempre faço essa analogia, que eu sempre quis ter uma caixa de lápis de cor para colorir os cenários cinzas do mundo, era isso que eu almejada do curso de graduação. Como nem tudo são cores, a expectativa de boa parte das pessoas que entram na nutrição está ligada a dimensão hospitalar e/ou biomédica da saúde. Como nada se mantém sozinho, essas expectativas hegemônicas são retroalimentadas pelo paradigma biomédico que impera na formação dos profissionais da área da saúde; pela supervalorização das dimensões biológicas do cuidado em saúde, e; pelo "status" que um jaleco pode trazer para uma pessoa. Não vamos entrar em generalizações, mas fatos são fatos, há uma inclinação forte na formação do profissional nutricionista para essas dimensões que eu já citei. Eu já tinha em mente a nutricionista que queria ser, apenas, não sabia como materializar isso, precisei desbravar o ambiente acadêmico. Questionar, questionar, questionar, era o que eu mais fazia.

Tive professores chave que me ajudaram nessa caminhada, não tenho como não mencioná-los aqui, Vanessa Backes, Signorá Konrad, Raquel Canuto, Sinara Robin e Maxmiliano Marques. Foram pessoas essenciais para me apresentar teorias, conceitos e valores para minha construção. Foi durante a graduação que iniciei minha participação em movimentos sociais de luta, abrindo meus olhos para os motivos geradores das desigualdades, enfim só fui caminhando mais a esquerda na vida. Ajudei na reabertura do centro acadêmico do curso que estava fechado há sete anos, o CAJOCA (Centro Acadêmico Josué de Castro); fui uma das fundadoras de um movimento de estudantes em defesa do SUS e por uma formação mais cidadã, Elos Coletivo. Tudo isso, somado aos acúmulos da Segurança Alimentar e Nutricional, do Direito Humano à Alimentação Adequada só foi confirmando em mim que comer é um ato político e que a alimentação no mundo é muito mais do que um conjunto de ações para saciar uma necessidade fisiológica.     

  • Tenda Viva: Você participa do projeto Other Food que está engajado na disseminação do conhecimento sobre as PANCs e seus usos para a erradicação da fome no mundo. Primeiro, o que são as PANCs? Como surgiu o projeto? E de que forma vocês tem trabalhado para levar a proposta adiante?

PANC é uma sigla que significa Plantas Alimentícias Não Convencionais, foi um termo proposto por um professor do Amazonas, Valdely Kinupp em 2007 e é um tentativa de definição as plantas e/ou partes delas que são comestíveis, mas não são amplamente consumidas na sociedade atualmente. A nível internacional, essas plantas são conhecidas e estudadas desde as décadas de 80/90 e são definidas como espécies subutilizadas ou negligenciadas. Esses alimentos são não convencionais ou negligenciados em relação ao sistema agroalimentar vigente que é formado por uma pequena variedade de alimentos produzidos; além do fato estarem dentro de uma produção intensiva no uso de agrotóxicos e sementes geneticamente modificadas (os transgênicos). Há uma potencia nessas plantas nutricional, ambiental e econômico gigantesco! Elas não dependem do manejo humano para se desenvolverem, são resistentes as intempéries climáticas e são espontâneas, podem ser encontradas em qualquer lugar: praça, ruelas, muros de casas, terrenos baldios. São muito nutritivas, especialmente no que diz respeito a micronutrientes (vitaminas e sais minerais), mais até que os vegetais que adquirimos nos supermercados.

Nosso projeto surgiu em agosto de 2014 quando recebi de uma amiga o convite para participar de um desafio acadêmico internacional de combate a fome, o Thought For Food. Esse desafio, tem a temática central a Segurança Alimentar e Nutricional e o Empreendedorismo Jovem, por isso, eles lançam uma pergunta para a juventude: "Como alimentar 9 bilhões de pessoas até 2050?". O desafio é composto por duas etapas, uma virtual onde você precisa desenvolver um projeto que responda a questão do desafio, e após a escolha das propostas finalistas, um congresso internacional onde as três melhores ideias recebem prêmios em dinheiro para tocar o projeto.

Como essas plantas podem ser encontradas nos lugares mais inusitados e não são dependentes do manejo humano, elas ampliam o acesso para aqueles que a reconhecem; muitas vezes elas estão inseridas nas propriedades rurais e são tratadas como mato, "ervas daninhas" ou comida para os animais. O trabalho que o Other vem desenvolvendo vai na linha de campanhas publicitárias na internet, oficinas expositivas e dialogas, trilhas de reconhecimento dessas plantas e imersões culinárias. Para além disso, queremos trabalhar com famílias em situação de vulnerabilidade que se disponham a praticar a agricultura urbana nos moldes da agroecologia e da permacultura, de forma a consumirem sua produção e possam a médio e/ou longo prazo comercializar um possível excedente. Articular pessoas e organizações para mostrar que outra alimentação é possível, isso é nosso eixo de trabalho. As possibilidade são muitas, somos jovens e cheios de energias então as perspectivas são muito positivas! :D

  • Tenda Viva: A busca por uma alimentação saudável e consciente tem levado cada vez mais pessoas a se interessar pelo consumo e pelo cultivo de alimentos orgânicos. De que forma as PANCs podem colaborar nesse processo de cultivo em ambientes urbanos?

As PANC são lindas! Quando falamos dessas plantas, estamos falando de tudo o que é comestível no mundo e não sabemos! Flores, raízes, folhas, tubérculos, caules, tem muito alimento espalhado por aí e a gente só comendo alface e tomate... Podemos desenvolver jardins comestíveis, praças comestíveis, cercas vivas comestíveis. Trabalhar com composição de plantas para ajudar na polinização das abelhas. Alimento gratuito, acessível a todos e fora dos moldes da agricultura convencional, mecanizada e químico dependente. Claro, precisamos lembrar que existem plantas comestíveis que precisam de preparo para o seu consumo, como muitos alimentos que conhecemos que ficam melhor palatáveis e/ou tem substâncias indesejáveis reduzidas para o consumo. Esses elementos são bem importantes de serem observados. Também, há pessoas que podem ser alérgica a algum elemento de um alimento desses, também, como qualquer pessoa está sujeito a alimentos convencionais. Assim, é sempre bom se aventurar nesse novo consumo em pequenas porções, acompanhando e respeitando os limites do seu corpo.

  • Tenda Viva: Você teve uma experiência de voluntariado em uma fazenda de produtos orgânicos. Como foi esse trabalho?

Foi uma das experiências mais INCRÍVEIS que eu tive na minha vida. Minha vivência foi em uma fazenda em Todmorden, um vilarejo na província de Yorkshare ao norte da Inglaterra. Andreza e eu passamos sete dias lá e tivemos a excepcional oportunidade de conviver com pessoas maravilhosas que vivem a permacultura e a agricultura urbana no seu território. A vida do campo em uma propriedade não é fácil, o trabalho é muito pesado e demanda cuidado diário de manutenção.

Chegamos no início da primavera, ainda com forte influência do inverno (tri frio!). Por isso, não plantamos muito, apenas dentro de estufas. Fora delas haviam os canteiros para preparar, as vacas e seus estábulos para limpar e organizar, e um chiqueiro que estava sendo preparado para receber porcos. O nome do projeto da fazenda chama Incredible Farm e está articulado com outro projeto da cidade chamado Incredible Edible. Esse segundo projeto acontece no centro da cidade onde há produção de alimentos nos locais públicos: no posto de polícia, nas escolas públicas, na biblioteca municipal, praças e no canal por onde um rio corta a região. TUDO é plantado, quando não são alimentos, são ingredientes culinários como os temperos ou flores para ajudar na polinização. 

Muitas plantas que aqui no Brasil podemos colocar dentro do balaio de PANC, lá deixam de serem caracterizadas por esse termo porque são conhecidas e consumidas por todos. Nós inclusive saímos ao campo e nas ruas para colher plantar que comporiam nosso almoço de domingo. Também conhecemos outro projeto chamado Aquaponic Lab, de um brasileiro (sim, estamos por todo o mundo!) que desenvolve tecnologias para a Aquoponia, que é a produção de alimentos simultaneamente com a criação de peixes. Uma loucura linda e super sustentável!

Sabe quando você vive algo que só confirma seu projeto de vida? Esses sete dias foram breves, mas decisivos para confirmação desse meu sonho, quero uma terrinha e "tacar" PANC pra tudo quanto é lado! hahahahaha Na verdade, não vou precisar "tacar", certamente elas estarão já no espaço com vida e resistência.

  • Tenda Viva: Como nutricionista, qual é o seu trabalho na Fiocruz?

Hoje sou bolsista de pesquisa do CNPq no Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura coordenado pela nutricionista doutora em antropologia da alimentação Denise Oliveira e Silva. Meu trabalho aqui é colaborar com as linhas de pesquisa do programa bem como, realizar assessoria e produção de conteúdo para o Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares - OBHA. Estou há quatro meses aqui em Brasília amando a equipe que integro. Somos muitos e muitas, mas a equipe permanente do Palin também é formada pela nutricionista Simone Armond e pela professora doutora Daniela Frozi, que além de pesquisadora também é conselheira no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Tem sido uma honra trabalhar com essas mulheres. Estamos desenvolvendo o site do Observatório que em breve estará no ar dando conta de temas ainda marginais para a Nutrição que são as dimensões simbólicas culturais do alimento e do ato de comer.

Por enquanto, meu trabalho tem sido bem interno, ler muitos artigos e textos para contribuir na consolidação do site e dos conteúdos a serem compartilhados. Muito em breve, estaremos com ele disponível para todos. Há poucos dias, integrei a equipe de uma das linhas de pesquisa que trabalha com hábitos alimentares, migração e patrimônios materiais e imateriais. Esse é um caminho novo pra mim, estou muito animada com essas vivências e tudo mais que vou aprender aqui.

  • Tenda Viva: Consumir do pequeno produtor, estimular a produção de hortas urbanas ou produzir em casa. É possível fazer revolução através da comida?

CLAAAAAAAAARO! Comer é um ato político. E quando falo em político, POR FAVOR, não pensem que estou falando de partidarismo. Não sou avessa a essa forma de articulação da sociedade, mas política não se limita a essa dimensão. Aristóteles já dizia que somos animais políticos, porque isso está ligado a forma de nos relacionarmos, como convivemos juntos nos territórios do mundo. O sistema político econômico que vivemos hoje, com bases no capitalismo corporativista também tendenciam e norteiam a forma como produzimos, distribuímos e consumimos o nosso alimento diário, isso para quem consome alimentos, claro, infelizmente ainda há pessoas que não tem acesso a alimentos, nunca podemos esquecer disso. 

Pessoalmente falando, a revolução está na ancestralidade e na forma como as comunidades e povos tradicionais e originários conviviam entre eles e com a natureza, fazendo parte dela de fora sinérgica. -

As pessoas pensam que para viver dessa forma, precisamos abrir mão das tecnologias desenvolvidas na contemporaneidade, isso é um equívoco, precisamos ressignificar essas práticas para o nosso tempo e espaço, respeitando sua origem e articulando com as potencialidades dos avanços tecnológicos até hoje criados.

São éticas e filosofias como o Ubuntu das comunidades africanas e o Teko Porã dos povos indígenas que nos indicam caminhos empáticos, colaborativos e sustentáveis para um mundo mais justo, plural e, no caso de quem luta pelo Direto Humano à Alimentação Adequada, mais nutritivo. Hortas comunitárias, viveiros públicos, feiras agroecológicas são espaços de convívio, aprendizagem e resistência. Consumir do pequeno produtor incentiva a economia local, valoriza os trabalhadores regionais que, em sua maioria, são guardiões de saberes e práticas ancestrais e importantes. Também encurtam os circuitos de distribuição de alimentos o que reduz os impactos ambientais oriundos dos resíduos de combustíveis fósseis dos veículos transportadores. São múltiplos os benefícios de quem consome tanto alimentos produzidos sem agrotóxicos quanto das proximidades.

Fotos: arquivo pessoal

Fonte: Tenda Viva

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